Não tenha medo do Marrocos! – relato de uma couchsurfer

Texto de Vanessa Santos

“Vou ao Marrocos!” Após esta afirmação, e já tudo sendo preparado, o que mais escutei foi: “Vai sozinha, você está maluca?” “Lá eles estupram!” “ Lá os homens são terríveis!” Vão te raptar!” “Vão te trocar por camelos” e muitas outras frases que deixariam qualquer pessoa em pânico.  Mas não sou de desistir fácil, e a informação é a maior arma contra o medo. Não iria totalmente sozinha, e sim com duas amigas, mas os avisos de “mesmo assim, só de serem mulheres é perigoso” continuavam.

Pesquisei bastante os locais que iríamos: Fes, Marrakesh e o caminho para o Deserto do Saara, o momento culminante da viagem. Como sou do Couchsurfing, entrei em contato com vários homens. Pois é, confesso que isto me assustou no início, afinal, somente homens responderam ao meu anúncio de viagem pública no site. A maioria oferecendo suas casas, hospedagem, companhia, comida, suas famílias. Muitos nem eram das cidades que destaquei que iria, me convidavam para outras cidades dentro do Marrocos. Eram várias mensagens, mais de 10 diariamente, mas fiz amizade com um “embaixador” do couchsurfing com mais de 100 referências e assim íamos filtrando as mensagens confiáveis, além, é claro, de verificar bem as referências. Entendi depois que não há muitas mulheres marroquinas no Couchsurfing e Facebook  pois elas não podem se expor, quanto mais convidar alguém estranho para ficar em suas casas.

Mantive contato mais próximo através de Facebook e Whatsapp com três marroquinos por um mês antes da viagem. Eles me davam dicas, tiravam dúvidas, explicavam uma ou outra particularidade, me ajudavam com os Riads (alojamento dentro da Medina) e com isso foi crescendo uma amizade. É claro que ainda tinha um pouco de medo, mas creio que o pensamento positivo atrai coisas boas, e eu estava com a energia para aproveitar o máximo aquela viagem.

Chegar a Fes foi um choque cultural, mas, talvez por eu estar esperando algo bem mais incisivo e assustador, achei muito tranquilo. Hospedamo-nos dentro da Medina, que é a cidade antiga murada, e Fes é uma das cidades mais tradicionais do Marrocos, em que a fé e cultura mulçumana está por toda a parte. Sim, nos olhavam, até porque não aguentei colocar algo a mais que uma blusa de alça no calor de 36°C. Os homens nos chamavam de “guapas” (bonita, em espanhol), proferiam algo que deixava nítido que era uma “cantada”, mas nada além disso. Talvez por eu já esperar algo pior, não me incomodou tanto. Nada que não tenha vivido também em países como Colômbia e México (até mais insistentes lá). As mulheres nos olhavam assustadas, as crianças faziam comentários e riam, ou seja, nós éramos a atração. Mas em nenhum momento me senti ameaçada, ou com medo.

Marcamos de nos encontrar com um dos meninos que fiz amizade no Couchsurfing. Obviamente, marcamos em um local público, mas ele que nos indicou como chegar. Nour veio com seu amigo Mohamed e fomos a uma lanchonete. Que menino dócil, educado, divertido! Senti-me até envergonhada de ter tido algum tipo de medo. Além de ser totalmente respeitador, educado, e gentil, me passou uma energia ótima e alegrou a todos com sua simpatia e explicações sobre os costumes, o Ramadan e o deserto. Arrependi-me de não ter aceitado o convite de ter ficado na casa dele. Com certeza tornaria esta viagem ainda mais especial.

Se Fes foi um mergulho na cultura marroquina com suas mesquitas maravilhosas e suas tradições, Marrakesh foi uma imersão no caos do Marrocos. Muita gente, muitos tipos, muitas variações. Ali já não éramos tanta novidade assim. Mas logo no início de nossa jornada tivemos a ajuda de um marroquino: Said. Totalmente perdidas, pois o dono do nosso Riad não foi nos buscar, foi ele quem ofereceu para nos levar, telefonou para o Riad, fez todo o acordo e chegamos bem ao local. Assim, sem cobrar nada. Fiquei bem assustada quando ele falou para entrar no carro. Imagina? Com todas as histórias que ouvimos? Mas a intuição foi a melhor aliada e Said se mostrou um amigo em toda a nossa viagem.

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Também marquei de encontrar Talha, o embaixador do CS em Marrakesh, no Meeting do Couchsurfing. A New Citty, como eles chamam a cidade fora da Medina, é totalmente diferente do que imaginamos de Marrocos. Suas lojas de grife, boates e hotéis luxuosos contrastam com a pobreza e tradição a que estávamos quase nos acostumando. Talha, além de ser muito educado e falar um inglês perfeito, nos apresentou a vários outros turistas ou estudantes vivendo em Marrocos. Ele com certeza foi fundamental para que nosso medo não tivesse razão de existir. E graciosamente também se desculpou pelo Maroccan harassment  (assédio) dos homens pelas ruas. Mas concordo com ele que isso tem muito mais a ver com o nível de educação e instrução (é assim também em nosso país, não é mesmo?).

E depois de conhecer tantos caras legais, tivemos coragem de conhecer não somente um,
van 3mas quatro amigos de uma vez. E fomos com eles para uma boate. Sim, a
night de Marrakesh é bem animada. E incrivelmente foi a única vez que usei o meu vestido mais decotado e curto da bagagem em toda a viagem (era para Barcelona, mas lá estava muito frio!). E mesmo de tubinho ninguém “mexeu” comigo. Não ali, onde todas estavam como ocidentais, algumas com lenços, outras sem, mas a maioria de minissaia ou roupas que até no Rio eu acharia “sexy”.  

Depois de dançarmos, bebermos (não todos, os meninos estavam se preparando para o Ramadan e não bebiam nada de álcool) ainda fomos para um pós festa. Eles nos chamaram para um Riad, dentro da Medina, que teria algum evento de arte, foi o que entendi. Quando chegamos não havia festa, apenas os meninos e nós, pensamos: “pronto, para que fomos confiar? Estamos perdidas, vamos morrer!” Mas este pensamento, louco e totalmente influenciado pelo o que ouvimos antes da viagem, deu espaço ao encantamento. Era realmente uma exposição artística que um dos meninos estava na organização, de vários escultores e artistas plásticos, com obras e montagens interativas. Foi incrível! Além de participar das obras da exposição, conversamos até de manhã, brincamos, rimos, falamos de peculiaridades da cultura e da língua e em nenhum momento nos desrespeitaram ou tentaram algo. E olha que não seria nada mal ter uma experiência com um certo marroquino… Mas para nossa surpresa (e minha tristeza), eles foram mais que respeitadores. Depois nos chamaram um táxi e combinaram com o taxista o valor e deram ordens para nos deixar no nosso hotel (algo bem importante visto que os taxistas sempre querem tirar vantagem no valor da corrida com turistas, infelizmente em qualquer lugar do mundo).

E foi assim nossa experiência com os temíveis homens do Marrocos. Hoje eu sinto muito mais medo aqui no Rio de Janeiro, no Brasil, que lá. Pois aqui há a cultura do estupro. Lá eles se guardam para o casamento e têm uma relação bem diferente com a sexualidade, principalmente da mulher, que não deve ser exposta. Não fiz este relato para que as mulheres viajem totalmente despreocupadas; estar alerta é muito importante em qualquer destino. Apenas não é um perigo iminente como parece. Tenha os mesmos cuidados que se tem em sua cidade, e principalmente quando se está sozinha:

  • Tente se vestir o mais próximo do costume do lugar (descobri bem tarde que o problema nem eram as pernas, mas os ombros);
  • Não beba nada de estranhos, fique de olho no seu copo;
  • Não entre em ruas escuras ou que você não tem certeza;
  • Ignore as cantadas (infelizmente em outro país é melhor não arriscar ser a super girl power feminista);
  • Se for se encontrar com alguém, marque em local público, se for do Couchsurfing, veja as referências, etc.
  • Siga sua intuição, principalmente.

Então, não desista! Atenção sempre, mas divirta-se!

 

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